Caso Gisele escancara o machismo estrutural e a certeza da impunidade
O feminicídio da soldado da PM Gisele Alves, morta em fevereiro de 2026 pelo marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, não é apenas mais um crime bárbaro. É o retrato de um sistema que naturaliza o controle masculino, protege agressores em posições de poder e insiste em silenciar mulheres.
Gisele foi vítima de um homem inteligente, articulado, com carreira consolidada e salário alto. Um homem que, por trás da farda e do prestígio institucional, acreditava estar acima da lei. Essa crença não nasce do nada: ela é alimentada por um machismo estrutural que atravessa instituições, famílias e relações, criando camadas de abuso que vão da manipulação emocional até a violência física.
O coronel não se limitava a ser ciumento. Ele exigia obediência, confundia amor com submissão, e usava sua posição para reforçar a ideia de que poderia controlar a vida de Gisele sem consequências. Quando finalmente a matou, tentou encobrir o crime como suicídio — mais uma demonstração de como o sistema protege o agressor e desconfia da vítima.
E a frieza não parou aí. Em depoimento, o coronel apareceu calmo, calculista, e chegou a culpar a própria filha, dizendo que as marcas no pescoço da mãe eram resultado de brincadeiras da criança. Essa manipulação cruel mostra que o sentimento de posse e a maldade não têm limites: quem deveria proteger, destruiu uma família, deixou uma criança sem mãe e ainda tentou usar essa mesma criança como escudo para sua narrativa.
Foi a imprensa que desmontou essa farsa. Reportagens revelaram mensagens, abusos e contradições, expondo a verdadeira face de quem se escondia atrás da farda. Sem esse trabalho, o caso poderia ter sido mais um número invisível nas estatísticas de “suicídios femininos”.
Esse caso escancara uma verdade incômoda: não basta ser instruído, ter prestígio ou ocupar cargos de liderança. O machismo estrutural não escolhe classe social, profissão ou grau de escolaridade. Ele se infiltra em todas as esferas e, quando encontra respaldo institucional, torna-se ainda mais perigoso.
O feminicídio de Gisele Alves é um alerta. Mostra que a violência contra mulheres não é exceção, mas consequência de uma cultura que legitima o controle masculino, que oferece impunidade a quem o pratica e que insiste em culpar a vítima. Enquanto não houver responsabilização firme e mudança cultural profunda, continuaremos a assistir homens que se acreditam donos da vida e da morte de suas companheiras.

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