Magreza extrema como distinção social - seu corpo diz muito
O padrão do tido como “corpo perfeito” tem algumas camadas que
envolvem uma série de fatores. De um lado, vamos pontuar o glamour de uma
modelo em passarela, sempre um corpo esguio, zero culotes, estrias, ou uma
gordurinha pontual. Não, jamais! A magreza nas passarelas impera, aliás, não
somente nas passarelas, mas como nas mídias sejam elas televisivas, impressas
ou, atualmente, digitais.
Para exemplificar é impossível não citar o grande Michel
Alcoforado – que se infiltrou no mundo dos super-ricos brasileiros e escreveu
seu livro denominado “Coisa de Rico”, onde conta como eles se comportam. Antes
do livro, Michel disse que ficou meses submerso em uma pesquisa etnográfica
para entender a dinâmica dos hábitos da elite e qual a relação disso nas desigualdades
sociais.
A chamada ditadura da magreza parece estar mais robusta nos
últimos anos, especialmente impulsionada pelas redes sociais e pela estética
que vem sendo promovida por celebridades e influenciadores digitais.
O corpo extremamente magro como da atriz e modelo Bruna Marquezine,
que remete ao estilo “heroin chic” dos anos 90, reaparece como símbolo de
status e sofisticação, em contraste com a ideia de que corpos maiores são “deselegantes”,
sobretudo por, supostamente, estar atrelado às camadas desabastadas.
Essa distinção revela como padrões estéticos não são apenas
escolhas individuais, mas também instrumentos de segregação; ser magro passa a
ser visto como sinal de uma disciplina inegociável, acesso a recursos e
pertencimento a uma elite cultural.
Esse movimento é reforçado por práticas que vão além da moda e
da alimentação, como o uso disseminado de medicamentos para emagrecer, a
exemplo das canetas de semaglutida, que se tornaram um atalho para alcançar
rapidamente o corpo desejado. Ao mesmo tempo, essa busca pela magreza extrema
traz consequências sérias para a saúde física e mental, aumentando os casos de
transtornos alimentares, insatisfação corporal, pressão psicológica, distorção
da imagem, sobretudo entre adolescentes e jovens que consomem esse conteúdo
diariamente na internet.
O paradoxo é que, apesar dos avanços recentes do movimento
body positive e da valorização da diversidade corporal, há um retrocesso
evidente – onde discursos de aceitação e inclusão são abafados pela estética
“clean girl” e pelo culto ao corpo magro como padrão aspiracional e símbolo da
alta sociedade.
A indústria da moda e da beleza, por sua vez, se apropria
desses movimentos apenas de forma superficial, mantendo intactos os ideais
excludentes que reforçam desigualdades.
Como conclusão, acredito ser fundamental analisar os aspectos
camuflados neste assunto, para não se contaminar e, eventualmente, adoecer-se
na busca do padrão inatingível, onde mulheres que vivem em função da imagem e,
altamente providas de recursos, conseguem viver todos os dias, exclusivamente
para treinar, viajar e alimentar-se de forma rigorosamente leve em uma
realidade absurdamente discrepante das milhares de famílias reais. Aliás,
também é perceptível que, a magreza real entre pessoas normais da classe D e E
não é glamour, mas sinal de escassez.
Entretanto, vale ressaltar que a parte da disciplina da alta
sociedade é algo irrefutável. Já se imaginou com milhões ou bilhões na conta,
podendo viajar e desfrutar dos melhores destinos e paisagens? Você comeria
feito um louco ou manteria a elegância de comer apenas o que o seu corpo
precisa de forma consciente e saudável? Eis a questão! Para as celebridades
como Bruna Marquezine e Sasha Meneghel, que não passam vontade de nada, exibir
um corpo muito magro é como levantar uma bandeira do autocontrole. Porque nesse
caso, não se trata de minimalismo, e sim de uma comunicação cultural e velada,
que reflete os hábitos mais enigmáticos e discretos da classe afortunada. Pense
nisso!

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