FRALDAS E FARDOS: Por que não devemos romantizar a maternidade

 psicóloga destaca como o mito da mãe perfeita desumaniza a mulher


Ela está sempre com um sorriso no rosto profundo e um olhar pleno. Segurando seu bebê no colo, ou brincando em um parquinho florido ou, quem sabe, aquela imagem da família feliz em uma festa de aniversário radiante e sua filha – que mais parece uma boneca – em um lindo vestido e um laço admirável no cabelo.

A ideia da maternidade plena sem desafios, até ontem, era implantada na cabeça da sociedade, e ai daquele que dissesse que, ser mãe não é uma missão tão esplendorosa assim.

Segundo a psicóloga Érika Puga, a idealização da maternidade cria uma lacuna dolorosa entre a realidade e o que foi prometido socialmente; e muitas mulheres se sentem em dívida por não viverem o dito “encantamento” que esperavam.

De acordo com a especialista, lidar com a maternidade real e trombar numa decepção, pode gerar culpa, tristeza e uma sensação de inadequação. “Na clínica, vejo o quanto essa cobrança pesa — como se o amor materno tivesse que ser incondicional e constante o tempo todo. Mas o amor também se constrói, se transforma e, às vezes, se confunde com o cansaço”, explica.

PSICOTERAPIA

A psicóloga destaca que o papel da psicoterapia é ajudar a mulher a entender que não existe uma forma ideal de ser mãe, e que o valor dela não está no desempenho, mas na autenticidade.

SUPRIMINDO EMOÇÕES NEGATIVAS

Indagada se há uma pressão inconsciente para que mães suprimam suas emoções negativas, Puga afirma que sim, e que há uma expectativa cultural de que mães sejam sempre pacientes, compreensivas e felizes.

Além disso, a especialista, faz um alerta, e conta que suprimir emoções legítimas gera sobrecarga, ansiedade e até sintomas físicos. “Quando sentimentos como raiva, frustração ou exaustão aparecem, muitas mulheres tentam escondê-los, com medo de serem vistas como ‘más mães’. Mas o que é reprimido, adoece. Na terapia, autorizamos a mulher a sentir, sem culpa”, acrescenta.

 

Puga ainda menciona que, toda emoção tem um propósito — e reconhecer o que se sente é o primeiro passo para o equilíbrio emocional.

ESTRUTURA HISTÓRICO CULTURAL

Para entender as raízes da problemática, é habitual que passamos a buscar respostas no passado mais longínquo.

Conforme Érika, a ideia da maternidade como realização pessoal quase que divina, vem de uma construção histórica e cultural, onde por séculos a fio, o papel social da mulher foi o de cuidar — dos filhos, da casa e do marido. “A maternidade foi tratada como destino natural, e não como uma escolha. Hoje, embora tenhamos avançado, essa narrativa ainda é reforçada de forma sutil: em propagandas, em conversas familiares e até em discursos religiosos”, cita.

Para a psicóloga, o problema da questão é que esse ideal restringe a mulher e desvaloriza outras formas de realização. “Como psicóloga, acredito que cada mulher tem o direito de escolher o que dá sentido à sua vida — ser mãe pode ser uma dessas vias, mas não a única”, opina.

IDENTIDADE

Érika ressalta que a maternidade transforma profundamente a mulher — emocional, física e simbolicamente. Em muitos casos, essa transformação vem acompanhada de uma perda: a mulher passa a existir apenas como “mãe de alguém”. “É comum ouvir mulheres dizerem que não se reconhecem mais, que não sabem o que gostam ou o que desejam. Na psicoterapia, trabalhamos o resgate da identidade feminina, ajudando essa mulher a se ver novamente como sujeito: uma mulher com sonhos, desejos e limites próprios”, enfatiza.

Para a especialista, é importante ressaltar que, ser mãe é um papel — importante, mas não o único; e que a mulher continua existindo antes, durante e depois da maternidade.

DESUMANIZAÇÃO DA MULHER

Questionada sobre os principais riscos da perpetuação do arquétipo da “mãe perfeita”, Puga afirma que essa narrativa é uma das maiores fontes de sofrimento emocional feminino. “Ela faz com que as mulheres se comparem, se cobrem e se culpem por não dar conta de tudo. Essa exigência constante gera esgotamento, isolamento e, muitas vezes, depressão pós-parto. O mito da perfeição desumaniza a mulher”, pontua.

Para a psicóloga, a sociedade precisa falar mais sobre maternidades reais — com ambivalências, falhas e aprendizados. “Quando a mulher se permite ser imperfeita, ela se torna mais autêntica e também ensina aos filhos que amar não é nunca errar, mas estar presente com verdade”, encerrou.





 

Por Dani Manzani |Rio Preto em Pauta


Comentários

  1. Exatamente 👏 Românticas a maternidade é tirar dela os direitos a erros , a supostamente julgar apontar e desapropriar a função de ser mãe...zelar amar e educar dar a base para filhos e alicerce. É um ator de amor e resistência ser mãe .

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